Remake de "Alice no País das Maravilhas" com elenco TODO negro!


A luta de negras e negros por representatividade nas artes parece que tem surtido efeitos incríveis. 


Você já está sabendo que estão refilmando o conto de fadas Alice no País das Maravilhas com um elenco de todos os negros? Quem deu a noticia em seu Instagram foi Duckie Thot:

"Nenhuma palavra pode descrever o que este fim de semana significou para mim. Reservei o meu trabalho dos sonhos depois de um ano de mudança para Nova York. Que honra para não só estar na capa do calendário @Pirelli, mas estrelar como Alice no primeiro All-Black  Alice no País das Maravilhas. Para sempre grata"

Duckie tem tido um ótimo ano, ela não é apenas conhecida como Black Barbie, mas ela é uma das caras da Fenty Beauty que lançou recentement sua linha de maquiagens. Então, como Duckie conquistou este papel incrível? De acordo com W Magazine, ela conseguiu o papel depois de se encontrar com Walker, o produtor que desenvolveu o conceito da refilmagem.

A atriz conseguiu o papel depois de passar apenas seis horas em Londres, onde conheceu Walker. Walker declarou que o debate é para além da diversidade que tem sido vista usada de forma comercial, por isso é controversa mesmo entre os negros e negras. O produtor quer contar a histíria de Alice como nunca antes foi vista.

Para nós, que crescemos vendo o belo como sinônimo de branquitude, poder ver um classico com elenco todo negro vai ser enriquecedor.   

O resto do elenco incluirá Naomi Campbell, RuPaul, Lupita Nyong'o, Whoopi Goldberg, Sean "Diddy" Combs, Adwoa Aboah e muito mais!

10 DICAS PARA VIAJAR SOZINHA E SEGURA!

No México/2016. Encontrei uma amiga, mas fui sozinha.
Conheci os painéis do Diego Rivera

Viajar sozinha pode parecer um pouco assustador, para quem nunca fez. A gente sabe que o machismo e o monte de casos de violência podem ser intimidadores, mas se organizar direitinho, você pode se divertir e muito! Além do que, após terminar a viagem, você vai ver como isso pode ser empoderador e reforçar seu contato com uma parte de si mesma que você ainda nem deve conhecer. O machismo não vai deixar de existir amanhã e enquanto combatemos ele temos que continuar nossas vidas, né?

Eu já viajei sozinha algumas vezes, inclusive para países muçulmanos - meu relato sobre minha viagem para o Marrocos está aqui - e posso dizer: vale a pena! O que são necessários são alguns cuidados a mais e tudo vai dar certo!

Viagem sozinha para Colônia/2016, na Alemanha

1. Planeje com antecedência

Se a a grana está pouca, compre as passagens antes. Não esqueça que as milhas podem ser uma excelente opção. Para viagens no Brasil, se você tiver até 29 anos e sua família estiver na faixa de renda prevista no programa, você pode se beneficiar com o ID Jovem. Neste link você encontra informações.
O mesmo vale para hospedagem. Os melhores hostels enchem logo. Se a sua opção é o couchsurfing, quanto antes você pedir, mais chance tem de arrumar alguém bacana. Aqui eu falo sobre couchsurfing.
Já fiz um post com dicas para economizar em viagens. Você encontra ele neste link. Outra dica é procurar saber se a época que você se planejou, é alta temporada para aquele destino. Se for, o planejamento com antecedência é ainda mais importante.
Um vez com passagens e hospedagem decididos, faça uma planilha com os detalhes e imprima todos os comprovantes de pagamento. Qualquer desorganização da empresa aérea ou hospedagem, você tem como provar.
Também guarde uma cópia deles em nuvem e envie para alguém de confiança.



Em Havana/2014, fui sozinha mas fiz uma amiga. Ela me recebeu em sua casa em 2016

2. Garanta que sua estadia será em um local seguro

O melhor jeito de saber se sua hospedagem é segura é lendo relatos de quem já se hospedou por lá, especialmente de mulheres. Sites como o Trip Advisor e o Hostel World 
oferecem opções de hotéis e hostels e mostram as avaliações e relatos de hóspedes. Tenha certeza que há armários disponíveis para você trancar seus itens pessoais. Somos mais visadas quando estamos sozinhas. Na dúvida, leve seu próprio cadeado. Nem precisa dizer que malas e mochilas devem estar com cadeado também.
Lembre-se de descobrir como chegar em sua hospedagem antes de sair da sua casa. Use o Google Maps, ou mande um email para o hostel.

3. Não esqueça seus documentos

Saiba com antecedência quais são os documentos necessários para o destino escolhido. Passaporte, visto, cartão de vacina...
Lembre-se que algumas vacinas devem ser tomadas com um tempo de antecedência. Não deixe para última hora. Estas são informações que você consegue na internet.
É importante também sempre andar com seus documentos, se possível em uma "doleira" (aquela bolsinha que fica presa ao seu corpo, por dentro da roupa). Tenha uma cópia autenticada e outra na nuvem (DropBix ou Googledocs são os que eu uso)



4. Consulte a previsão do tempo

Consulte a previsão do tempo do seu destino. É uma dica importante para que você possa organizar sua mala e seu roteiro com antecedência. Nada pior do que planejar ir à praia e chegar lá e dar de cara com chuva. Isso vai te ajudar a organizar uma mala mais compacta.

Eu de novo sozinha em Madrid/2016 

5. Organize um roteiro

Uma das piores coisas é perder tempo toda a manhã organizando cada coisa que vai fazer. Consulte com antecedência as principais atrações do destino. Tente usar um mapa para prever o que dá para fazer a pé. Lembre de levar em conta se o roteiro é turístico e se há movimento de pessoas para você fazer este roteiro com tranquilidade, sem se sentir ameaçada.
Uma dica é instalar o aplicativo Google Trips. Através dele, você consegue descobrir o que há por perto de sua hospedagem e fazer roteiros baseados no seu tempo disponível. Você também vê avaliações das atrações e se certifica de preços e a segurança do local. 


Viagem para Londres/2016 sozinha! Fotinho com pau de selfie (que não pode faltar na mala)

Compartilhe com alguém de confiança este roteiro. Mantenha esta pessoa informada nas mudanças de planos ou se você arrumou uma companhia, como um crush (tomara!), por exemplo. 

6. Tente levar o mínimo de coisas possível

Abra mão de coisas que você não vai usar. Sério! Nada de levar uma mala enorme porque você não vai ter pessoas para te ajudar a carregar.
Então, faça uma lista do que é fundamental, inclusive de medicamentos que você costuma usar. Saber o clima com antecedência vai te ajudar nesta missão.
Lembre-se: quanto menor a mala, mais fácil para guardá-la em hostels ou também de ocupar menos espaço na casa de quem te hospeda.


Na Cracóvia/2015, na Polônia, eu pedi para uma mina tirar uma foto do meu look "estou com frio". Sempre peço para mulheres fazerem minhas fotos quando estou sozinha. Como vocês podem ver no meu look, nada combina com nada, levei pouca roupa!

7. Tenha em mãos telefones úteis

Telefones da embaixada brasileira daquele local ou da polícia turística, em casos de viagens internacionais, devem estar em mãos. Também tenha o telefone e o endereço de onde você está hospedada. Anote em um papel e salve na nuvem também. Nada de confiar no celular. Se ele for roubado ou acabar a bateria, você fica na mão.


8. Administre bem seu dinheiro

É terrível ficar sem grana nos últimos dias, então cuidado para não ficar na mão. Se está com pouco dinheiro, vá em um mercado próximo e compre coisas para cozinhar. Faça roteiros a pé, se possível.
Para viagens internacionais, lembre que alguns cartões de crédito precisam de desbloqueio.
Não esqueça de verificar a moeda do local de destino e faça câmbio de alguns dólares ainda no Brasil. Nunca sabemos como é o câmbio em aeroportos. Existe também a opção de adquirir cartões pré-pagos. Verifique isso com antecedência.
Mais uma vez: lembre de levar a doleira e dividir seu dinheiro. Nunca coloque tudo que você tem em um lugar só. Já fui roubada e me levaram até os cartões de crédito. Ou seja: não viajo com tudo concentrado em um lugar só, muito menos na mochila!


9. Saiba algumas palavras do idioma local

Se o seu destino for internacional, anote e treine palavras importantes para se virar por lá. Perguntar como pegar ônibus, táxi, pedir informação em geral é fundamental quando você viaja sozinha. Se for ficar mais de uma semana, vale a pena comprar um dicionário de viagem.

10. APROVEITE!

O machismo é preocupante, mas não pode nos privar de levar uma vida normal. Estamos cada dia conquistando mais espaços, então vamos ter que aprender a administrar nossas conquistas.
Leve um livro, a música que você curte, uma máquina de tirar fotos (ou celular com pau de selfie) e aproveite. Nada de neuras. Com os cuidados acima você pode ter uma viagem segura e inesquecível
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26 looks da década de 1980 para as pretas se inspirarem

A década de 1980 está de volta! Para as fãs de brilho e glamour essa é uma grande notícia. Os looks deste período não poupavam brilho, transparência, cores e texturas. Ao mesmo tempo que você encontra looks monocromáticos - principalmente pretos, inspirados na tendência punk rock - você podia abusar do neon e das cores fortes quase sempre combinadas. Parece uma grande loucura, mas acredite: tem muita coisa linda!

Lembre que os croppeds e as jaquetas jeans que estão em alta a pelo menos duas estações são herança da década de 1980. Quer saber mais? Olha as inspirações abaixo. Unimos fotos atuais com fotos da década de 1980 e você vai ver que muita coisa que está nas vitrines veio direto do túnel do tempo.

1. Cintura alta





A cintura alta é uma marca das calças e shorts nos anos 1980. Seja jeans, de tecidos como linho ou seda, a cintura alta é uma marca das calças da moda anos 80.


2. Blusa Cropped




As blusas cropped eram usadas tanto como tops como blusas amarradas. Foram blusas que começaram a ganhar força na moda anos 1980 e se consolidaram na década de 1990. Para completar o visual, uma calça de cintura alta é perfeita.

3. Jaqueta Jeans




Na verdade, se era jeans estava no corpo. Jaqueta, blusa, calça, saia. Mas, as jaquetas, em especial, eram usadas em uma modelagem maior, no que a gente chama de oversized. Elas dão um ar despojado e podem ir com tudo: saia longa, short, camisão.

4. Leggings



Outra grande tendência nos anos 1980 eram as leggings. Elas saíram direto da academia de ginástica - como muitas das tendências do período - para as ruas. Para ficar ainda mais brilhante, o ideal é uma legging estampada ou de uma cor bem vibrante.

5. Moletom



O moletom é mais um item que saiu do mundo fitness para as ruas. Ele compõe um look street wear e é super confortável. Grande pedida para quem quer se inspirar na moda da década de 1980. Pode ser usado com salto, tênis, bota. Solte a imaginação e arrase.




Além dessas apostas, há algumas que podem ser arriscadas, mas quem faz a moda é você. Se você se sentir bem, use mangas bufantes, ombreiras, coletes e macacão, mix total de acessórios, shorts curtos e rasgados, botas de plástico, tênis coloridos, meias coloridas, polainas, pochetes, macacão jeans. Abra o seu guarda roupa e se inspire.

Espero que vocês tenham curtido! 


Kota Rifula: o poder da ancestralidade (31/31)

No último dia de julho, ainda estou cheia de vontade de contar histórias de centenas de mulheres, mas vou ter que concluir o #julhodaspretas. Para isso, trouxe mais uma biografia que não estava registrada na internet, como uma homenagem àquelas que vêm sendo silenciadas, que não têm suas histórias registradas, mas que merecem todo reconhecimento por diversas conquistas no cotidiano. No dia 31 dos 31 dias do #jullhodaspretas, trago a biografia de Ana Semião – conhecida como Kota Rifula (nome africano designado por sua posição no Candomblé): mulher negra, trabalhadora, feminista, periférica e do candomblé.



A juventude física e o papo leve não revelam que Kota Rifula é uma senhora de 75 anos. A leveza e alegria com que ela conta suas histórias é contagiante. Seu cabelo de dreads naturais mostram que ela é uma mulher com muita propriedade de sua história e que tem muito para nos ensinar.

Kota tem uma importante atuação no movimento de trabalhadoras domésticas e de mulheres negras nacionalmente. Nascida como Ana Semião, em 11 de junho de 1942, em Passos, no interior de Minas Gerais, ela vem construindo a luta pelos direitos das empregadas domésticas e das mulheres a cerca de 30 anos em Campinas, no interior de São Paulo.

A história de Kota Rifula em Campinas começa quando, com a morte dos pais, ela e as irmãs saem de Minas Gerais para trabalhar em serviços domésticos. Elas vivem uma história muito parecida àquelas de tantas outras garotas negras e que ainda se proliferam Brasil afora: elas vêm “morar” com uma família e são responsáveis pelo cuidado com a casa.  No caso de Kota Rifula, ela tinha apenas 10 anos de idade quando vem com uma família para São Paulo e vive como trabalhadora doméstica até os 27 anos de idade.



Do serviço doméstico, ela sai para o casamento. A história de seu casamento é contada de forma feliz. Ela revela que seu marido foi um bom companheiro, bom pai e muito trabalhador. Eles tiveram 6 filhos, apesar da morte de 3 deles. Além da morte dos filhos, Kota Rifula teve que lidar com o assassinato do companheiro. Após ficar viúva, ela não se casa novamente, mas, segundo ela, “namorou muito” a vida toda. Com a viuvez, ela retoma as atividades como trabalhadora doméstica, agora aliada à militância política. 

Por influência da irmã, Regina Simião (outra importante preta que pretendo fazer a biografia), ela se aproxima do Sindicato das Trabalhadoras Domésticas de Campinas, que foi o primeiro sindicato a organizar as trabalhadoras domésticas no Brasil. Sua intervenção em defesa das trabalhadoras domésticas é histórica. Em 1997, Kota Rifula ajudou a fundar e foi a primeira presidente da Federação Nacional das Trabalhadoras Domésticas (FENATRAD).

Ainda na década de 1990, Kota Rifula filia-se ao Partido dos Trabalhadores, permanecendo filiada até os dias atuais. Ela acha fundamental organizar-se em um partido de esquerda, principalmente quando consideramos os retrocessos do momento atual. 

Além da atuação no sindicato e partido, faz parte do FECONEZU (organização quilombola). A participação de forma democrática de homens e mulheres, com divisão de tarefas e a construção coletiva fazem com que o FECONEZU seja identificado por ela como sua principal atuação política.

Na década de 2000, já com mais de 60 anos, descobre o Candomblé e resolve se dedicar a ele. Sob a orientação de Mãe Dango, Ana Simeão renasce através de sua iniciação à religião e começa a responder por seu nome africano. Na mesma década, ela inicia sua atuação como Promotora Legal Popular, onde se aproxima ainda mais da luta feminista. O feminismo é um posicionamento que Kota Rifula faz questão de reafirmar como fundamental para as mulheres negras. Ela diz ser impossível transformar a sociedade sem o feminismo.


Antes de terminar a conversa Kota fez questão de falar do sucesso dos 3 filhos e da neta, já iniciada na religião. Duas mulheres e um homem que enchem ela de orgulho. Pra ela, eles são a prova de que as mulheres negras estão vencendo suas batalhas, afinal, há alguns anos, uma empregada doméstica não poderia sonhar em ter filhos formados em universidade pública e concursados. Kota não só sonhou como pode ver isso acontecer em sua própria casa. 

Conversar com Kota Rifula é ver a vida em movimento. Ela transmite uma confiança na mudança e no poder das mulheres que te contagia. Ela é uma daquelas mulheres que fazem com que tenhamos certeza de que é necessário e possível mudar o mundo.  Kota Rifula, obrigada por existir. Sua existência mostra o poder da ancestralidade!

VIVA KOTA RIFULA
VIVA AS MULHERES NEGRAS
  

Foram 31 dias de homenagens às mulheres negras. Cada biografia resgatada foi um resgate pessoal. Conhecer a história de vida destas mulheres foi como reconstituir minha própria história ou da minha mãe e das minhas tias. Temos em comum histórias de solidão, fome, violência... mas, de muito trabalho, luta e solidariedade. Atravessamos o oceano separadas, mas estamos nos reencontrando pouco a pouco, recontando histórias e memórias apagadas. Com a história de Kota Rifula, aproveito para anunciar que estamos fazendo parte de um projeto maior de registro de biografias de mulheres negras que têm construído nossa existência com luta e resistência, mas que estão anônimas. Depois de contar tantas histórias maravilhosas, ainda tive a oportunidade de terminar o mês nos braços de mulheres negras no festival Latinidades. Prometo que farei um relato especial sobre esta atividade. Mas, posso dizer que o mês de julho de 2017 foi marcante, renovador e encorajador. 
Viva as mulheres negras! Viva as mulheres negras das américas e do Caribe!

Rosa Parks: "eu estava cansada de ceder" (30/31)



No penúltimo dia do #julhodaspretas - sim, já estou ficando triste e arrasada - vamos falar de uma preta que se tornou símbolo da luta pelos direitos civis nos Estados Unidos da América: Rosa Parks. Ela fica famosa, quando, em 1º de dezembro de 1955, recusa-se a ceder o seu lugar no ônibus a um homem branco. Ela se torna o estopim do movimento que foi denominado boicote aos ônibus de Montgomery e posteriormente viria a marcar o início da luta antissegregacionista. Conhecer sua história é entender o que estava por trás deste ato que foi um marco histórico.

Rosa Parks nasceu Rosa Louise McCauley em Tuskegee, Alabama, em 4 de fevereiro de 1913, filha de uma professora e um carpinteiro. Ela foi uma criança com a saúde frágil, tinha frequentes crises de amigdalite. Quando seus pais se separaram, ela se mudou com a mãe para Pine Level, logo abaixo da capital do estado, Montgomery. Ela cresceu em uma fazenda com seus avós maternos, mãe e irmão mais novo, Sylvester. Todos eles eram membros da Igreja Episcopal Metodista Africana (AME), instituição negra independente fundada por negros livres na Filadélfia, no início do século XIX

Rosa frequentou escolas rurais até a idade de onze, depois foi para o Alabama State Teachers College para negros, mas teve que abandonar os estudos cuidar de sua avó e depois de sua mãe, depois que eles ficaram doentes. 

Em torno da virada do século 20, os antigos estados confederados adotaram novas constituições e leis eleitorais que efetivamente excluíam os eleitores negros e, no Alabama, muitos eleitores brancos pobres também. As empresas de ônibus e trem aplicavam políticas de assentos com seções separadas para negros e brancos. O transporte de ônibus escolar não estava disponível em qualquer forma para escolares negros no Sul, e a educação negra sempre estava subestimada.


Repetidamente intimidada por crianças brancas em seu bairro, Parks muitas vezes teve que lutar fisicamente com elas. Ela disse mais tarde que "até onde eu me lembro, nunca poderia pensar em aceitar abusos físicos sem alguma forma de retaliação". 

Em 1932, Rosa se casou com Raymond Parks, um barbeiro de Montgomery. Ele era membro de uma associação de negros que na época estava coletando dinheiro para apoiar a defesa dos Scottsboro Boys - um grupo de homens negros acusados ​​falsamente de estuprar duas mulheres brancas. Rosa ocupou inúmeros empregos, que vão desde trabalhadora doméstico até assistente de hospital. Por insistência do marido, ela terminou seus estudos de ensino médio em 1933, época em que menos de 7% dos afro-americanos tinham um diploma do ensino médio.

Em dezembro de 1943, Parks tornou-se ativa no Movimento dos Direitos Civis, ingressou no grupo em que o marido já militava. Em 1944, na sua qualidade de secretária do grupo, ela investigou o estupro coletivo de Recy Taylor, uma negra de Abbeville, Alabama. Rosa e outros ativistas dos direitos civis organizaram o "Comitê para a Justiça Equitativa para a Sra. Recy Taylor", lançando o que o Defensor de Chicago chamou de "a campanha mais forte para a igualdade de justiça a ser vista em uma década". Embora nunca tenha sido membro do Partido Comunista, ela participou de encontros com o marido.


Em agosto de 1955, o adolescente negro Emmett Till foi brutalmente assassinado depois de ter paquerado uma mulher branca enquanto visitava parentes no Mississippi. Em 27 de novembro de 1955, quatro dias antes de subir no ônibus, Rosa Parks participou de uma reunião de massa na Igreja Batista Dexter Avenue em Montgomery que abordou este caso, bem como os recentes assassinatos dos ativistas George W. Lee e Lamar Smith. O apresentador principal foi T. R. M. Howard, um líder negro de direitos civis do Mississippi que liderou o Conselho Regional de Liderança Negra. Howard trouxe notícias da recente absolvição dos dois homens que assassinaram Till. Parks estava profundamente triste e irritada com a notícia, particularmente porque o caso de Till ganhara muito mais atenção do que qualquer dos casos em que ela e sua organização haviam trabalhado.

O sistema de segregação de lugares no transporte já vinha sendo alvo de protestos dos negros, mas nada havia mudado. Em Montgomery, as primeiras quatro filas de assentos em cada ônibus eram reservadas para brancos. Pessoas negras deveriam sentar-se na parte traseira dos ônibus, local onde haviam poucos lugares, uma vez que 75% de quem utilizava os ônibus eram pessoas negras. Assim, elas podiam sentar-se nas fileiras do meio até a seção branca preenchida. Se mais pessoas brancas precisassem de assentos, pessoas negras deveriam ir para a parte traseira, ou ficar em pé ou, se não houvesse espaço, sair do ônibus! Ao entrar em um ônibus, se já houvessem pessoas pessoas brancas sentadas na frente, as pessoas negras deveriam entrar pela frente, pagar a tarifa e depois desembarcar e voltar a entrar pela porta de trás.

Um dia em 1943, Parks embarcou num ônibus e pagou a tarifa. Ela então se mudou para o assento, mas o motorista James F. Blake disse-lhe para seguir as regras da cidade e entrar novamente no ônibus da porta dos fundos. Quando Parks saiu do veículo, Blake saiu sem ela. Parks esperou o próximo ônibus, determinada a nunca mais andar com Blake. Ou seja, ela já vinha passando os mais diversos constrangimentos a anos. 

Depois de trabalhar o dia todo, Parks embarcou no ônibus da Cleveland Avenue, às 6h da quinta-feira, 1 de dezembro de 1955, no centro de Montgomery. Ela pagou sua tarifa e sentou-se em um assento vazio na primeira fila de assentos traseiros reservados para pessoas negras. Perto do meio do ônibus, ela estava bem longe dos assentos reservados para passageiros brancos. Inicialmente, ela não percebeu que o motorista de ônibus era o mesmo homem, James F. Blake, que a deixara na chuva em 1943. Enquanto o ônibus viajava ao longo de sua rota regular, todos os assentos brancos no ônibus foram preenchidos. Foi quando o motorista notou que dois ou três passageiros brancos estavam de pé, exigiu que quatro passageiros negros cedessem seus lugares para os passageiros brancos. Três passageiros negros se levantaram e Rosa Parks se recusou a fazê-lo. Em sua biografia ela declara que pensou em Emmett Till quando se recusou a levantar. Blake disse: "Por que você não se levanta?" Parks respondeu: "Eu não acho que eu deveria ter que me levantar". Blake chamou a polícia para prender Parks. Ela foi presa! Parks foi acusada de uma violação do Capítulo 6, Seção 11, Lei de segregação do código da cidade de Montgomery, apesar de tecnicamente, ela não tivesse tomado um assento branco. 

Em sua autobiografia, My Story, ela disse:

"As pessoas sempre dizem que não desisti do meu assento porque estava cansada, mas isso não é verdade. Eu não estava cansada fisicamente, nem mais cansada do que costumava estar no final de um dia útil. Eu não era velha, embora algumas pessoas tenham uma imagem de mim como sendo idosa então. Eu tinha quarenta e dois anos. Não, só tinha um cansaço, eu estava cansado de ceder."

A comunidade decide por um boicote aos ônibus de Montgomery. O Conselho Político das Mulheres foi o primeiro grupo a endossar oficialmente o boicote. No domingo, 4 de dezembro de 1955, os planos para o boicote aos ônibus de Montgomery foram anunciados em igrejas negras na área, e um artigo de primeira página no Montgomery Advertiser ajudou a difundir a palavra. Em uma reunião da igreja naquela noite, os participantes concordaram por unanimidade para continuar o boicote por mudanças no transporte.

No dia seguinte, Parks foi julgada acusada de conduta desordenada e violando uma ordenança local. O julgamento durou 30 minutos. Depois de ser considerado culpada, pagar multa e os custos judiciais, Parks apelou a sua condenação e impugnou formalmente a legalidade da segregação racial. O boicote no dia do julgamento de Parks foi vitorioso, mesmo com chuva, a comunidade negra aderiu fortemente ao movimento. A partir de então, a população negra cria o "Montgomery Improvement Association" (MIA) para continuar a organização do boicote. Seus membros são eleitos e como seu presidente foi eleito o jovem Martin Luther King Jr.

O boicote de ônibus em Montgomery continuou por 381 dias. Dezenas de ônibus públicos ficaram ociosos há meses, prejudicando gravemente as finanças da companhia de trânsito, até que a cidade revogou sua lei que exigia segregação em ônibus públicos após a decisão do Supremo dos EUA em Browder v. Gayle de que era inconstitucional. 

A prisão de Parks foi o catalisador da organização dos negros, primeiro em Montgomery e depois no restante do país. Após ser solta, ela passa a ser ameaçada de morte, perde o emprego e se vê forçada a sair da cidade. Começa a viver em Hamptom, mas continua militando a favor dos direitos civis por muitos anos. Ela ganha diversos prêmios e homenagens por sua atuação a favor dos direitos civis.

Parks residiu em Detroit até morrer de causas naturais aos 92 anos em 24 de outubro de 2005, em seu apartamento no lado leste da cidade. Ela e seu marido nunca tiveram filhos. Seu enterro e funeral tiveram as honrarias de um chefe de estado. No vídeo abaixo, podemos ver o discurso do - ainda senador - Barack Obama prestando homenagens à Rosa Parks em seu funeral.


VIVA ROSA PARKS!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!

Magali Mendes: "eu só sei trabalhar pelo coletivo" (29/31)

A proposta do #julhodaspretas da Central das Divas é dar visibilidade às mulheres pretas. Mostrar que temos história própria. Que nossa luta tem sido feita por mulheres de verdade, de carne e osso. Precisamos conhecer seus rostos, nome e sobrenome. Assim, temos conseguido mostrar mulheres que já tem algum registro biográfico na internet, mas achamos que é possível e necessário fazer novos registros. Dar visibilidade à mais mulheres negras que tem lutado de forma anonima, mas que têm mudado a realidade de tantas outras mulheres negras e suas comunidades. Vou apresentar e registrar, pela primeira vez na internet, a biografia de algumas mulheres que admiro e que tem contribuído para a luta de mulheres negras. 

Uma destas mulheres é a ativista, do movimento negro e sindical, Magali Mendes que vive a muitos anos em Campinas, no interior de São Paulo, e é a 29ª mulher negra homenageada pela Central das Divas no nosso #julhodaspretas. Para registrar a biografia de Magali, pude conversar com ela comendo uma pizza e foi tão simples que não dava nem para acreditar que alguém tão fascinante e importante para a luta das mulheres negras estava ali ao meu alcance. Cada história que ela conta, você se envolve tanto que nem se lembra mais do que perguntou no inicio. Na conversa, eu aprendi tanto, sobre tanta coisa que foi até difícil ir para casa depois. Conversa de preta, das boas! Sorte a minha.


Magali Mendes nasceu em Jundiaí, uma cidade vizinha a Campinas, em 10/01/1963. Magali é a mais nova de 5 filhos. Filha de um metalúrgico e de uma dona de casa, formou-se em Técnica Agrícola e gostaria de continuar seus estudos em Agronomia. Mas, sua história é semelhante às histórias de tantas outras mulheres negras. Magali não continuou seus estudos em Agronomia, pois sua família não tinha condições de bancar mais anos de estudos. Portanto, ela precisava trabalhar.


Concursada na UNICAMP, Magali se muda para a cidade de Campinas onde fica por 35 anos. Sua carreira como funcionária da UNICAMP começa no cargo de jardineira. Esta era uma função exercida majoritariamente exercida por homens e foi um espaço de opressão para as mulheres que dividiam com eles as tarefas. Magali relata que sofreu diversas pressões machistas enquanto trabalhava neste setor. É quando ela se aproxima do Sindicato dos Trabalhadores da UNICAMP, se filiando e participando ativamente das atividades do Sindicato, tendo participado da gestão do ano.... Magali se aposenta como funcionária da UNICAMP, tenso passado pelo Instituto de Ciências Humanas e CIS Guanabara.

Durante o período em que trabalhou na UNICAMP, Magali cursou história na PUC. Ao ser questionada sobre os motivos que a levaram buscar uma formação superior, Magali diz que fazer um curso superior era importante, mas não foi um sonho. Ela acredita que temos que garantir possibilidades de que o curso superior seja uma escolha e não a única opção de garantia de vida para os jovens, especialmente negros e negras. Ela acredita que existem outras possibilidades para além da formação superior, mas que elas só poderão ser aproveitadas quando forem uma escolha possível para quem quiser e não um privilégio.

Apesar de sua atuação no sindicalismo, a principal atuação de Magali foi em defesa dos direitos de negros e negras, tendo participado de importantes atividades dos movimentos negros, especialmente o FECONEZU, uma organização quilombola. Magali atua no FECONEZU desde os 17 anos de idade, quando teve a oportunidade de ajudar a organizar um encontro da entidade na região de Jundiaí. A partir do encontro, ela e outros jovens fundaram o Grupo Afrocultural de Jundiaí.

Na década de 1990, Magali participa da Comissão de Mulheres Negras de Campinas e da fundação da Casa Laudelina na mesma cidade. A intervenção de Magali na defesa dos direitos das mulheres negras a levou até o II Encontro Afro Caribenho de Mulheres, em Costa Rica (2011). Este encontro aconteceu com o objetivo de ampliar as pautas do I Encontro e incluir as mulheres afrocaribenhas nelas. No ano de 2015, Magali Mendes participou da fundação da Frente de Mulheres Negras de Campinas que impulsionou a caravana de Mulheres Negras a Marcha de Mulheres Negras, em Brasília.

Quando perguntada se é feminista Magali confirma sem pensar: SOU FEMINISTA! Ela diz que desde sempre viveu o feminismo, ainda que não tratasse por este nome as relações que sempre foram estabelecidas em sua casa e bairro e que orientaram sua vida. É a partir destes posicionamentos feministas que Magali constrói o que ela identifica como sua principal atuação: as PROMOTORAS LEGAIS POPULARES, onde ela atua desde 1996. Ela identifica que através de sua atuação nas PLP's ela pode se aproximar de verdade dos problemas que as mulheres periféricas enfrentam em seu cotidiano, podendo apoiá-las e instrumentalizá-las para que possam, elas mesmas, ser agentes de transformações em suas casas, comunidades e na sociedade.

Para Magali Mendes, a principal tarefa dos movimentos de mulheres negras no momento atual é renovar o movimento, oxigenar, trazer mais mulheres para a luta. Para ela, temos sido vitoriosas. Ver os olhos de  Magali brilhando de esperança ao falar da nova geração de mulheres que tem abraçado a luta das mulheres negras me encheu de amor e vontade de continuar. Sim, Magali Mendes, você é uma Griô.

VIVA MAGALI MENDES!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!


Agradecimento especial a Daniele Diniz, que contribuiu lindamente para este post!


Chimamanda Ngozi Adichie e o perigo da história única (28/31)

Ela já era mundialmente reconhecida como um dos maiores talentos literários de sua geração e acabou se popularizando quando Beyoncé escolheu um trecho de sua palestra “Sejamos Todos Feministas” (que foi transformada também em livro) para usar na música e no clipe “Flawless”, de seu álbum homônimo de 2013. Estamos falando de Chimamanda Ngozi Adichie. Ela é a 28ª preta que homenageamos no #julhodaspretas na Central das Divas. Ela não é nascida no continente americano, mas tem influenciado muito o mundo ocidental, por isso, resolvemos falar dela no #julhodaspretas.

Chimamanda Ngozi Adichie nasceu em Enugu, na Nigéria, em 15 de setembro de 1977. Ao todo, ela tem 5 irmãos e é filha de um professor universitário e uma funcionária da Universidade da Nigéria, que por sinal foi a primeira secretária do sexo feminino da universidade.

Chimamanda começou seus estudos na Universidade da Nigéria, na área de estudou medicina e farmácia, por um ano e meio. Por lá, ela editou The Compass, uma revista feita por estudantes de medicina da universidade católica. Aos 19 anos, a escritora mudou-se para os Estados Unidos para estudar. Foi quando estudou comunicação e ciência política na Universidade de Drexel, na Filadélfia, tendo estudado depois em Eastern Connecticut State University para viver mais perto de sua irmã, que tinha um consultório médico em Coventry. Em 2003, ela completou um mestrado em escrita criativa na Universidade Johns Hopkins. Em 2008, recebeu a titulação de Master of Arts em Estudos Africanos pela Universidade de Yale. 


A carreira de Chimamanda é recheada de prêmios desde seus primeiros escritos. Sua primeira publicação foi uma coletânea de poemas em 1997 (Decisions) e, logo depois, uma peça (For Love of Biafra) em 1998. Já em 2002, foi indicada para o Prémio Caine com o conto "You in America".

Em 2003, sua história "That Harmattan Morning" ganhou o prêmio O. Henry para "The American Embassy". Ela também ganhou o David T. Wong Prêmio Internacional de Contos 2002/2003 (PEN Centro Award) e uma Beyond Margins Award por seu conto "A metade de um sol amarelo" de 2007.

Seu primeiro romance, Purple Hibiscus (2003) foi aclamado pela crítica e recebeu o Prêmio Commonwealth Writers como Melhor Primeiro Livro (2005).

Seu segundo romance, Half off a Yellow Sun, nomeado em homenagem a bandeira da nação de Biafra, se passa antes e durante a Guerra de Biafra. Esta obra também foi premiada com o Orange Prize de 2007 para Ficção. Half off a Yellow Sun foi adaptado para um filme com o mesmo título, dirigido por Biyi Bandele, estrelado pelo indicado ao Oscar Chiwetel Ejiofor e por Thandie Newton, lançado em 2014. Seu terceiro livro, The Thing Around Your Neck (2009), é uma coleção de histórias curtas.

Em 2010, ela entrou na lista dos 20 autores de ficção mais influentes com menos de 40 anos."Ceiling", foi incluída na edição do The Best American Short Stories 2011.Em 2013 ela publicou seu terceiro romance, "Americanah" que foi selecionado pelo New York Times como um dos 10 Melhores Livros de 2013.

Além do sucesso em livros, as palestras de Chimamanda correram o mundo na internet. "O perigo das histórias únicas" foi um sucesso no TED em 2009. Você pode assistir este vídeo legendado abaixo:




Mas, o maior sucesso da autora, transformado em livro, foi a palestra realizada "Sejamos todos feministas" no TEDxEuston, realizada em 2012. Este discurso é aquele que incorporado, em 2013, na música "Flawless" da cantora americana Beyoncé. No discurso, ela compartilhou sua experiência de ser uma feminista africana, e sua visão sobre construção de gênero e sexualidade.

″Eu estou com raiva. A construção de gênero do modo como funciona atualmente é uma grave injustiça. Todos nós deveríamos estar com raiva. Esse sentimento, a raiva, é importante historicamente para as transformações sociais positivas, mas além de estar com raiva eu também estou esperançosa porque eu acredito profundamente na habilidade dos humanos de se reinventarem e se tornarem melhores".

O vídeo está disponível abaixo e vale a pena assistir mais uma vez!


Muito orgulho de uma mulher tão jovem e negra que tem ditado muita coisa importante no movimento de luta das mulheres. São as mulheres negras mostrando que não há uma história única.


VIVA CHIMAMANDA!
VIVA AS MULHERES NEGRAS!





No mês de julho vamos celebrar, conhecer, homenagear 31 mulheres no mês de julho! Sabemos que ainda é pouco, mas será um prazer rever a vida de algumas das nossas inspirações! Billie Holliday, Carolina Maria de Jesus, Elza Soares, Ella Fitzgerald, Chimamanda Ngozi Adichie, Sueli Carneiro, Taiye Selasi, Luiza Bairros... São tantas pretas maravilhosas que iremos homenagear! Não perca!!